terça-feira, março 13, 2007

Father

Quando meu pai morreu em março, lágrimas rolaram de minha cabeça. Compacto rio trazendo as águas que fechavam o verão. Não me sabia capaz de tamanho pranto. Senti meu interior liqüefeito escapando por olhos, boca e nariz. Virado pelo avesso. A ausência garantida como promessa. Nunca mais o tato. É com saudade, ainda agora, depois de tanto tempo, que me lembro do calor e da textura de sua pele. A mesma de vovó, muito de minha própria, nossas orelhas de lóbulos flácidos iguais. Semelhante destino subterrâneo.
O cemitério é um campo gramado. Ruas, quadras e jazigos. Edificações ausentes, apenas lápides rentes ao verde abundante. Quadrados de pedra paralelos com ou sem placa de bronze gravada. Rígido padrão. Nome, data de nascimento e morte. Árvores ocasionais na triste paisagem de flores transportadas. Aclives e declives espraiados. Acesso motorizado até quase o túmulo. Quadra 31, jazigo 27. Ponto final de meu pai.
Ateu, o mais provável seria me afastar da atitude que inaugurei e se fez costume. Visitas em datas especiais: finados ou aniversários diversos. Ritual visto de longe carola. Ato de resistência, porém, rebeldia contra o inexorável. Matéria atraindo matéria. Enquanto souber que mínima parte, muito minha, está ali, sob aquele punhado de terra, seguirei comparecendo. Até o último átomo. Vitorioso na razão direta do que perdura: o pó, farelo de osso, infinito.
Fico por assim dizer vagando. Minha mulher, discreta, mantém-se por perto, cuidando-me protetora.
Às vezes paro comovido quando a música que ouço, não sei de onde, fala mais alto. Outro dia surpreendeu-me o velho do cordão azul e encarnado:
Boa noite senhoras moças.
Boa noite rapaziada.
Boa noite senhoras velhas.
Das bochecha inchada.
Num domingo frio e úmido, quando a tristeza era muita, a voz grave de Paul Robeson cantou. Falava de um rio Mississipi quase tão importante quanto o São Francisco.
E mudando de paisagem, passo primeiro pela Guanabara, onde o barquinho vai e vem, antes de ver plantas queimadas e retorcidas. Mandacarus. Origem de tudo. Nordeste.
Ao retirar-me penso em todas aquelas vidas secas. É como consigo imaginar a morte. Meu pai mais vivo do que nunca, crescido dentro de mim. Íntegro.
Entro no carro. Cordélia, ao lado, liga o rádio. Elomar geme por Zefinha. Impossível conter-me. Mecanicamente aciono o limpador de pára-brisa.

15 comentários:

valter ferraz disse...

Lord, abriu aquela caixa, amigão?
Dias existem que a solidão aperta, desenterramos os mortos e ficamos à mercê de nossos pensamentos.
Atravesse a ponte e volte assi que as lembranças permitirem.
Respondendo ao comentário anterior: sim meu pai adotivo era italiano. Veio para o Brasil com um ano de idade, nas primeiras levas de imigrantes. Tenho muito boas recordações dos mais de vinte anos em que cuidou de mim. Fui para ele o filho que não teve e ele para mim aquele a quem o Criador confiou minha guarda. Soube fazer bem sua parte. Se não dei nada na vida a culpa não foi dele. Morreu e eu não tive tempo de dizer isso a êle. Perguntava-se calado(lia nos seus olhos isso): onde foi que eu errei?
Êpa, deixo-te com tuas recordações, me vou com meus fantasmas.
Abraço apertado

Eduardo P.L. disse...

Estou adorando estas paragens de literatura. Não é o meu forte, se é que tenho algum, mas adoro ler quem escreve bem. Fácil. Gostoso. O Lord da o tom, o Valter entoa!Maravilha!

Lord Broken Pottery disse...

Valter,
Tenho certeza que você fez bem a sua parte. O carinho que você revela quando fala dele é evidente demais. Os velhos sempre querem mais para nós. Meu pai também me olhava com olhos nem sempre felizes. O filho poderia ter estudado mais, aproveitado melhor as oportunidades, sido menos esculhambado. Padecíamos de uma doença que o tempo curou: éramos jovens demais.
Grande abraço

Lord Broken Pottery disse...

Eduardo,
O prazer é mútuo. Também tenho me pendurado no varal.
Grande abraço

aninha-pontes disse...

Apesar de já ter passado por aqui, nunca tinha antes me expressado.
Hoje lí o bonito post e homenagem à tão amada vózinha, e agora esse post de pura saudade de alguém tão amado que já se foi.
Sei bem o que disse aqui, também já me sentí completa e totalmente sem nehuma referência. Sim, é isso mesmo quando perdemos nossos pais,é perder todas as nossas referências, ficamos como folhas soltas ao vento.
Mas a saudade só sentimos de alguém que nos é muito especial, e por isso nos tornamos especiais, tanto quanto eles.
Parabéns!
Um abraço.

Lord Broken Pottery disse...

Aninha,
Gostei da imagem. Realmente ficamos como folhas soltas ao vento. Já fui visitar: O Meu Jeito de Ser.
Obrigado pelas palavras carinhosas.
Beijo

Eduardo P.L. disse...

Ops, meu cronista diário não compareceu!!!

valter ferraz disse...

Eduardo, ele está "fazendo doce". Queremos post! queremos post!

Anônimo disse...

Lord,
Eu também ouço uma música de vez em quando. Em algumas épocas, meu pai vivia cantarolando pela casa. A felicidade é como a pluma, que o vento vai levando pelo ar, voa tão leve e tem a vida breve, precisa que haja vento sem parar...
Bonito lembrar dos nossos queridos assim, com tanta música, e com textos triste mas cheios de alma como o seu. Kisses, Lady Madonna

jayme disse...

A vida eterna é, na verdade, a memória.

Lord Broken Pottery disse...

Eduardo,
Presente! Desculpe-me o atraso.
Grande abraço

Valter,
É duro ter que trabalhar... Atrapalha a rotina dos posts. Logo eu que adoro rotina.
Abração

Querida Lady,
Você é suspeita. Muitas das músicas que agradavam meu pai também agradavam o seu. Eram quase irmãos. Quer dizer que você deixa Portugal para nos visitar?
Beijos

Jayme,
Bem dito. Ou, como já disseram: "A nossa arma é o que a memória guarda".
Abraço

Eliana disse...

fiquei emocianda. Agora feito Lord, escreva mais e muito mais.

Lord Broken Pottery disse...

Eliana,
Bom que você gostou, fiquei muito feliz.
Beijão

Eliana disse...

ele iria gostar da comenda, Lord. fico até vendo ele se divertindo lendo as tuas travessuras de primogênito, turmal, viceral e real - nada virtual. lembra que fui umadas testemunhas semanais dos seus últimos anos, numa coincidência esquisita de "pais"- dele e do Otavio Ianni.

Lord Broken Pottery disse...

Eliana,
Claro que me lembro. Você sempre esteve por perto.
Beijão