No quintal enluarado os brinquedos esquecidos refletem sombras prateadas e a tristeza do abandono contrasta com a alegria que trouxeram durante o dia para os meninos encantados daquela casa esguia perdida no meio do quarteirão prensado entre as duas ruas mais importantes daquele bairro longínquo perdido no meio da cidade onde as crianças ainda sabem brincar e brincam tanto que suam gotinhas salgadas em forma de buços e correm e gritam e se cansam de montar quebra-cabeças em forma de mapa-múndi e pedalar velocípedes de plástico e jogar queimada rindo as bandeiras despregadas e pular corda até não aguentar mais de tanta diversão que há neste mundo vasto mundo de tantos Raimundos.
Terça-feira, Fevereiro 17, 2009
Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009
Hold-up
Acabamos de presenciar um assalto. Rápido, organizado, às claras. Encostamos em um muro, aguardamos os acontecimentos. Enfadados e tranqüilos. Treinados, sabemos como lidar com estas coisas. Ao mesmo tempo em que, do outro lado da rua, a velhinha recolhia o cocô do poodle, três motoqueiros, revólveres na mão, cercaram um quarto, limparam-no, seguiram seu destino. Tudo muito corriqueiro, comezinho. Quando passei pelo infeliz, recém-subtraído, também calmo e preparado para a situação, inevitável, pude ouví-lo comunicando ao patrão os últimos acontecimentos, restara-lhe o celular. Somos mesmo civilizados.
Sexta-feira, Janeiro 23, 2009
Words Again
Implico com algumas palavras, dificilmente as utilizo. Por mim aproveitaria a revisão ortográfica para excluí-las de nosso vocabulário. Jamais me ouvirão dizer ou escrever que minha "esposa" fez alguma coisa. Pior só a versão masculina: "esposo". Usá-las é feio, brega, de profundo mau gosto. Digo "mulher", ou "marido", bem mais elegantes e sofisticados. Não gosto daquelas que entram na moda. Hoje em dia tudo é "emblemático", vivia muito bem antes das coisas serem assim. Gostam também de "clarificar" os pensamentos, no sentido de explicá-los, esclarecê-los. Para mim ficaria melhor em roupa. Caso fosse publicitário produzindo uma campanha diria, criando um neologismo, que determinado sabão em pó "clarifica" mais as roupas. Ainda vai demorar um tempo para que aceite o "deletar", mas aí já é uma outra longa história, que não gostaria de "estartar" agora.
Sexta-feira, Janeiro 16, 2009
Cinema
Gosto de ir ao cinema sozinho. Não programo com antecedência o que vou assistir. Prefiro ir a um local com muitas salas, chegar na hora que mais me agrada, entrar na primeira sessão que irá começar. É o tipo de programa que me cura de tudo. Acabo vendo coisas boas e ruins, mas o saldo é positivo. O bom sempre permanece e o descartável vai para o lixo, esqueço. Como repito esta rotina semanalmente, enfileirando sempre mais de um filme, consigo manter-me atualizado com o que está passando. Além disso, à noite, antes de dormir, diariamente, escolho mais unzinho na televisão. Vício, paixão, não sei definir. Enquanto estou alí, observando a vida fictícia que passa na tela, não me preocupo com nada. Gasto mais um tempo, igualmente prazeroso, escrevendo minhas próprias histórias. Outro dia, num estalo, dei-me conta de que talvez prefira a ficção à realidade. Será?
Quarta-feira, Janeiro 07, 2009
Quero-quero
Domingo acordei um pouco triste. Meu pai, caso existisse além de minhas lembranças, completaria oitenta anos. Meio sem saber a razão fui ao cemitério, costume que foi se espaçando, rareando, até tornar-se um ritual distante e meio sem sentido. Senti vontade de ir e obedeci ao impulso. Lá chegando gostei de ver a lápide bem cuidada, as placas de cobre dele e de minha avó brilhando, a grama bem aparada ao redor da pedra. Desconfiado, achava que podia estar jogando dinheiro fora ao pagar o serviço de manutenção. Como não freqüento o túmulo, acabo não fiscalizando os trabalhos. Fiz mau juízo da empresa responsável, ou será que eles capricharam por causa da data?
Um casal de quero-queros e seus dois filhotes bem bonitinhos, me recebeu com estardalhaço. Não gostaram de ver um intruso invadir sua privacidade silenciosa. É o que dá enterrar nossos entes queridos em campos relvados, habitat natural desses pássaros. Cada vez que tentava me aproximar, levar o vaso de flores ao seu destino, avançavam com as asas abertas, protetores. Agora, relembrando a cena, não consigo deixar de rir. Imagino que meu velho, se perguntando porque eu não havia trazido uma garrafa de uísque ao invés de flores, presente estranho para se dar a um alagoano, também deva ter se divertido. Na hora fiquei meio desarvorado, sem saber o que fazer. Minha sorte, porém, foi que um dos nenéns afastou-se dali e a família, sempre muito unida, foi atrás.
Pude então me emocionar um pouco, menos do que nas outras vezes, e conversar sobre literatura com o Ricardão. É como eu rezo, falo com ele sobre livros.
Sexta-feira, Dezembro 05, 2008
Unlawful
Outro dia recebi censura meio pesada. Acusaram-me de criticar demais o país, ser pouco brasileiro. Embora as palavras tenham ficado ecoando, e a gente deve prestar atenção quando isto acontece, fiquei feliz. Nacionalismo é uma das coisa mais burras conhecidas. Já disse outro dia, e repito, preferir me considerar um cidadão do mundo. Minha casa é onde estou bem. O Brasil tem coisas irritantes demais, não consigo ficar calado. Como viver em um lugar onde a observação das leis tem segundas intenções? De um tempo para cá resolveram colaborar para a lotação dos cárceres. Juízes, imbuídos de grande vaidade, fazendo alarde de seus pareceres, resolveram deitar sentenças a torto e a direito. Mandam prender, fazem e acontecem. Sem peso e sem medida. E assim, quando a interpretação da lei é tão livre e criativa, o povo acaba preso injustamente. Na minha lógica canhestra, devo ter aprendido na escola, há muito tempo, as prisões teriam sido feitas para protegerem a sociedade. Lá deveriam ser colocadas pessoas perigosas, ameaçadoras de nossa segurança. Será? Muitos assassinos estão por aí, beneficiados por serem réus primários e terem bons advogados. Leves e soltos. Botar na cadeia, porém, quem foi encontrada pichando a Bienal, dá IBOPE. Esta moça, a tal da Caroline, se considera uma artista. Declarou ser a forma de expressar-se, criticar a sociedade. Para mim não passa de uma topeira completa, mas poderia pagar o seu delito limpando paredes. Enfiá-la em uma cela, acompanhada de gente perigosa, é um crime pior. A sua arte é literalmente uma porcaria, mas caso insistamos em seguir por aí, precisaríamos tolher a liberdade de todos os cantores de música sertaneja.
Segunda-feira, Novembro 24, 2008
A Blissful Life
Já fui mais feliz, concluo com certa tristeza. Se olho para trás, e retomo o passado, não há como tapar o sol com a peneira. Antes que meus amigos corram para me acudir, alarmados com o que talvez considerem sintomas depressivos, chamo a atenção para o entendimento correto da frase inicial. Ter sido mais feliz, não significa ser infeliz. É apenas a constatação de uma gradação. Alguns fatores talvez contribuam para esta perda de fôlego de meu bem estar interior. Envelhecer, sem dúvida, é um deles. O passar dos anos tem várias características amargas. Chega um determinado momento em que passamos a fingir que não vemos o que o espelho mostra. Enxergamos alho, onde há bugalho. Meio que atordoados constatamos o encolhimento de nosso universo pessoal afetivo. Falo de amores. A morte, que acabará por nos levar, carrega antes aqueles de quem mais gostamos. O que sobra é saudade. Palavra única de nosso vocabulário, cujo sentido considero dúbio. Existem dois tipos: aquela que podemos matar, e a que será eterna, enquanto durarmos.
Cresci ouvindo de meu pai que a obrigação maior do ser humano era tentar ser feliz. Será que ele conseguiu? Aprendi, contudo, direitinho. Sempre fui um cara alegre e bem disposto, e continuarei sendo, pois sou renitente. Nada tenho, porém, de cego. A curva da felicidade é descendente.
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