quinta-feira, abril 05, 2007

O Que Me Deixa Feliz

A Aninha, de O Meu Jeito de Ser, passou a tarefa, pediu que escrevesse sobre o que me deixa bem. Sou feliz escrevendo, cada vez mais. É quando a realidade é só minha, sem interferência. Embora as personagens acabem criando vida e, muitas vezes nos levem por caminhos indesejados, o mundo da ficção me deixa mais calmo. Nele os imprevistos são controlados, as coisas acontecem segundo uma lógica estabelecida previamente, a segurança de um plano norteando cada parágrafo, universo perfeito.
Acho que talvez seja essa a chave da questão. Não gosto de surprêsas. O melhor dia para mim é igual ao dia anterior. Minhas ações não são muito pensadas. Ligo o automático e deixo a rotina me levar. Acordo, vou para academia, treino cerca de duas horas diárias, sigo para o trabalho, executo as tarefas mais urgentes, dou um tempo, "bloggeio" um pouco, almoço, trabalho, "bloggeio", trabalho, volto para casa, fico com minha mulher, janto, leio ou vejo televisão, durmo cedo. Basicamente minha semana é assim, e me agrada bastante. Nos intervalos rio, brinco, converso, sou um sujeito alegre quando não estou triste.
Nas férias prefiro viajar. O prazer começa no aeroporto. Gosto de chegar cedo e ficar vagando, antecipando o passeio, curtindo cada momento. Como me sinto melhor na Inglaterra, local onde deveria ter nascido, procuro ir para lá sempre que posso. Pena a moeda deles ser tão cara. Faço minha base em Hastings, cidade litorânea em East Sussex. É perambulando pela Europa, indo e vindo, circulando, respirando civilização, que vivo minha melhor vida.
Gosto de família, dos amigos, de comer bem, ir ao cinema, competir em corridas de rua, ser útil.
Falta-me muito pouco para ser completamente feliz. Gasto uns cobres com uma analista para me ajudar. É que existe em mim tristeza intrínseca, decorrente de relação terrívelmente mal resolvida com a morte. Não aceito o ignóbil destino de todos nós. Sofro por meu futuro inexorável e pelos entes queridos que já perdi e perderei. Morro de medo de morrer.

15 comentários:

O Meu Jeito de Ser disse...

Lord, obrigada por ter aceitominha proposta.
Ficou perfeito, como tinha que ser.
Com isso vamos conhecendo melhor nossos amigos, e isso só faz aumentar o carinho que sentimos, as vezes até meio inexplicável.
O que ficou claro prá mim, é que você é muito humano, por isso talvez este sofrimento.
A morte é realmente inaceitável, uns sofrem mais, outros menos, ou pelo menos consegue conviver melhor com o sofrimento da perda.
Valeu Lord, foi muito legal.
Um beijo

valter ferraz disse...

Caro Lord, quer dizer que gosta de viajar para o interior?
Diz para mim(se for muita indiscrição, deixa quieto)por quê Hastings? curiosidade mata, eu sei, mas se puder responder, agradeço;
Uma confidência: o mêdo de morrer tb me aflige e é coisa nova, há algum tempo atrás isso não me ocorria. Já passei por várias situações de risco iminente e não me atingiu tanto. Deve ser sintoma da idade.
Gostei muito da franqueza do post, assim conhecemos uma pessoa.
Tenho uma inveja(saudável) da tua rotina. Nunca conseguí ser metódico e seguir uma rotina, daí os percalços que passei.
Um abraço grande

Lord Broken Pottery disse...

Aninha,
Obrigado por suas palavras. Foi muito legal a experiência. Voltei a ser menino quando os temas de redação me desafiavam. Também sinto muito carinho por você e pelo Valter.
Beijão

Valter,
Viajar para mim só para fora do Brasil. Hastings é uma cidadezinha que descobrimos quando minha mulher foi estudar na Inglaterra. Viveu quase três anos lá. Na época, já estávamos casados, como analista de software de suporte eu fazia muita hora extra. Ao invés de receber em dinheiro preferia receber em dias. Sempre que juntava 15, corria para a Inglaterra. No período desses quase três anos fiz várias viagens para lá. Acabei me apaixonando pela cidade. É tranqüila, civilizada, lá tudo funciona direito, bonita, charmosa, tem todos os encantos possíveis.
Isso de ser metódico e seguir rotina é coisa de temperamento. A gente apenas segue nosso próprio jeito.
Abração

Eduardo P.L. disse...

Lord, surpreendente franqueza. Nem precisa de analista( ele que não me ouça...) com uma cabeça como a sua. Agora a morte só apavora ou assusta os vivos. Fique calmo! Abçs.

Adelino disse...

Lord Broken, seria redundância eu dizer: Lindo texto. Então nem vou dizer. Eu me identifiquei em muitos pontos com a sua descrição. Como mais experimentado, aconselho-o a não se preocupar muito com as coisas que não pode mudar. Faça o seu melhor, e deixa "a vida te levar", como canta o nosso Zeca Pagodinho. Não sei qual a sua idade, mas daqui a muitos anos, você verá que muitos sentimentos de apreensões que lhe roubaram algum tempo, não tinham sentido algum. Perdeu-se foi tempo. Seja feiz e pronto.
Medo da morte? Bobagem. A natureza é sábia. Quanto mais passa o tempo as pessoas vão se acostumado com ela.
Grande abraço e Feliz Páscoa para você e familiares.

Lord Broken Pottery disse...

Eduardo,
Acho que você tem razão, não adianta dar murro em ponta de faca. A melhor maneira de tratar com a morte é tentar não pensar nela. Obrigado por seu carinho.
Abração

Adelino,
Você pegou o espírito da coisa. Quando escrevi que deixava a rotina me levar, lembrei dos versos do Zeca Pagodinho.
Já não sou tão criança, tenho cinqüenta e três anos, três meses, uim dia e treze horas e meia. Como você vê, e contestando um pouco o Eduardo aí em cima, preciso mesmo de minha analista. Sou fixado no tempo. Um dia escreverei um post sobre relógios. Mutio obrigado por suas palavras amigas.
Abração

peri s.c. disse...

Caro Lord, 2 horas de academia, parou de beber, não fuma. O paradoxo : um dia você morrerá gozando de perfeita saúde.

Que bom que você tem sua cidadezinha na Inglaterra, eu gostaria muito de ter a minha, uma daquelas medievais, na Itália. Uma sugestão de um interessante filão para seus escritos : suas observações/recordações inglesas.

abraço

denise disse...

Lord, rotina nos faz sentir seguros. Às vezes, o imprevisto nos obriga a refletir sobre esta vida. E, com certeza, ela recomeça após a morte. Minha fé me faz acreditar nisso. Por que viver se vamos morrer? Não teria sentido.
abraço, garoto

anna disse...

lord, diferentemente de vc, meu medo habita na vida.

Lord Broken Pottery disse...

Peri,
Acho que no fundo faço o que posso para não morrer. O paradoxo é morrer gozando perfeita saúde. Com perfeita saúde só se morre de acidente.
Está prometido, breve escreverei sobre experiências inglêsas.
Abração

Denise,
Não peço perdão por sentir inveja. Considero a inveja um sentimento humano, natural. Adoraria ter a sua fé. Tenho um profundo desgosto por não acreditar.
Beijão

Anna,
Eu tenho medo do desconhecido. Sou muito desconfiado com as coisas que não entendo. A vida, bem ou mal, tem algum sentido para mim.
Beijão

Eduardo P.L. disse...

Lord, comentário 2 = " Viver faz mal à saúde, assim mesmo é melhor estar vivo".Dito popular, autor desconhecido.

Lord Broken Pottery disse...

Eduardo,
Não conhecia o dito mas tem a sabedoria do povo. Talvez porque a vida embriague.
Abração

Vivien disse...

Lord, bacana sua lista. Invejei as duas horas na academia e as viagens...rs
Compactuo com o medo de morrer.abç.

Mani disse...

Mon cher Lord, a europa é a tua cara!

Lord Broken Pottery disse...

Vivian,
As duas horas de academia talvez seja o que mais gosto de fazer. Para fazer exercício como eu faço (há mais de vinte anos), só gostando muito.
Beijão

Mani,
Também acho, adoro o clima em todos os sentidos.
Beijão