terça-feira, abril 10, 2007

Homesickness

Faço aqui uma pequena homenagem ao publicitário Jayme Serva, do Dito Assim .
A propaganda esteve presente em minha casa desde sempre. Meu pai, o publicitário Ricardo Ramos, apresentou-nos, de certa forma, ao ofício. Cedo conhecemos os jargões, quem era quem, vivemos, nos anos setenta e oitenta, muito do que aconteceu na profissão.
Logo aprendi a não dizer reclame. O termo deixava o velho irritado, era anúncio e estávamos conversados.
Meu foco maior é nas pessoas. Orígenes Lessa foi o início de tudo. Como gostava muito do escritor e mais tarde, adolescente, via Pasquim, virei fã do Ivan Lessa, fiquei feliz em conhecê-lo em minha casa, numa ocasião em que veio a São Paulo. Outro de quem não esqueço foi Geraldo Santos. Era famoso por seu charme pessoal, considerado um dos craques da época. Morreu bestamente. Tinha medo de dentista e preferiu fazer um tratamento com anestesia geral, não voltou.
Recentemente me correspondi com o Márcio Moreira. Ainda muito jovem, saído do Mackenzie, tornou-se um dos redatores do meu pai, já na McCann-Erickson. Freqüentava as nossas feijoadas de sábado. Na época queria ser escritor. Era como um filho mais velho na casa da rua Tamanás, onde morávamos. Conversávamos, ouvíamos música, vibrávamos com as letras das canções de protesto da época. Hoje o Márcio vive em Nova Iorque e é presidente da McCann. Tenho por ele um carinho enorme, de irmão.
Outro que estava sempre presente foi o Izacyl Guimarães Ferreira. Mais recentemente, via União Brasileira dos Escritores (UBE) , ele excelente poeta, estreitamos nosso contato.
O Armando Moura era o diretor de arte do velho. Por gostar de trabalhar com ele levou-o para a Tempo de Propaganda, que fundou com o Geraldo Tassinari e o Francisco Gracioso. Muito se falou, na época, sobre a fundação dessa agência. Na realidade um desejo do Sr. Bombril, como o chamávamos em família. Queria ser atendido por uma empresa brasileira. A Tempo nasceu com essa conta, bem grande na época, e mais a do banco Lar Chase, que foi junto. Uma perda grande para a McCann. Lembro quando o Zelão fez o jingle que cantávamos alegres: "Bombril, bombril, bombril, ninguém passa sem bombril...".
Quando paro para pensar os rostos vão passando em minha frente: Fontenelle, Mario Chamie, Julieta de Godoi Ladeira, Jayme Cortez, Edmundo Cotti, Renato Castelo Branco, meu tio, irmão de minha mãe, Raymundo Araújo, minha prima Marise Araújo, todos publicitários maravilhosos.

14 comentários:

valter ferraz disse...

Caramba, Lord!
Está aí uma bela expressão para o início de um comentário. Acho que para muita gente eu teria que traduzir o significado de Caramba!
Mas a verdade é que teu post me impressionou. Você viveu os áureos tempos da propaganda, aquele tempo em que se desbravavam os caminhos. Não conheço muito do assunto mas viví a mesma época que você e sempre ví com olhos arregalados uma área profissional que estava muito próximo do que eu gostaria de fazer na vida. Meus caminhos frutos de minhas escolhas não me levaram onde eu queria, portanto fiquei sempre na arquibancada. Mas como torcedor ví o sucesso de muita gente que enveredou pela propaganda e se fêz nela. E saber que voce viveu isso de muito perto me faz sentir como se eu estivesse lá.
Sempre admirei Orígenes Lessa, lí muito o Ivan no Pasquim e desconhecía que ele era filho do homem. Tá aí, gostei.
Abraço grande

jayme disse...

Milord, antes de tudo, a homenagem me encantou. Basta ver os nomes embaixo para que se veja o que eu posso querer ser quando crescer. É incrível como a publicidade da época de seu pai -- e que ele tão bem "historiou" -- era mais inventiva e inteligente. Não gosto de disseminar saudosismos, mas duvido que houvesse alguém naquele tempo que viesse a público dizer coisas como "a propaganda brasileira não vai bem porque o nível dos clientes caiu muito", frase que ouvi de vários dos geniozinhos atuais. Que belo texto retorspectivo. Abração,

Vivien disse...

Acho que a publicidade é uma fonte fantástica pra História. Já usei em pesquisas e aulas, o resultado é sempre interessante.Capta muito do imaginário, aliás, se for uma boa propaganga, tem que captar mesmo.Quanto ao Jayme, sou leitora assídua, sem dúvida.

Lord Broken Pottery disse...

Valter,
Passo pelo caramba batido, ainda hoje o uso bastante e não sabia ter caído em desuso. Durante muito tempo quis ser publicitário. Meu pai me desestimulou. Ele viveu muito tempo em conflito, querendo escrever, achando que a propaganda atrapalhava. Quando conseguiu, segundo expressão que usou na época, pendurar as chuteiras, ficou um ano sem conseguir escrever nada. Só retornou à produção literária quando voltou ao meio publicitário, indo dar aula na ESPM.
Abração

Jayme,
Fico muito feliz que você tenha gostado. Não sabia que os geniozinhos de hoje diziam esse tipo de coisa. Os geniozinhos, pelo visto, sempre poluíram o ambiente publicitário. Na época do velho ele já se queixava disso, sempre havia alguém, com polpudo salário, falando besteira.
Abração

Vivien,
Também acho. A propaganda mostra muito sobre a cultura dos povos. Você chega em um país, liga a televisão, presta atenção nos comerciais, em pouco tempo você percebe um panorama bastante completo sobre hábitos e costumes.
Beijão

O Meu Jeito de Ser disse...

Sem contar que há propagandas e "propagandas".
Há àquelas que você tem que tirar o chapéu para o publicitário, tem toda uma história envolvida em determinado anúncio.
Agora, tem alguns também, que vou te dizer, o cara deveria ir dar banho e escovar cavalos, iria vencer na profissão.
Um beijo

Lord Broken Pottery disse...

Aninha,
Concordo. Como em qualquer profissão existem os bons e maus. O que não entendo é como certos clientes aprovam determinados anúncios.
Beijão

Sibila disse...

Essa vai ficar gde pq: "recordar e viver". Infãncia na TV: "A barata cantando o iê, iê, iê... o dia inteiro a traça passa a roerrr" (sotaque carioca); " Céu azul, Leste, Oeste, Norte ou Sul, vc livre pelo ar c/ quem gosta de voar.."; Quero ver vc ñ chorar, ñ olhar pra trás, nem se arrepender do q faz" (depois sacanagem c/ os Gays); "Louça fresca, bem + fresca ODD, ODD em pó..."; "Depois de um sonho bom, a gente levanta...". E a gente sacaneava mto, tipo: "Depois de um pesadelo, a gente levanta, toma aquele tombo e quebra os dentinhos..." ou "Roupa preta, bem + preta ODD, ODD em pé, veja só: é o chulé!" ou " O óleo salada vem matando, envenenando, intoxicando... nossas famílias por várias e várias gerações"; ou "Por favor, eu imploro, COMPRE OMO TOTAL, sabe como é senão perco o emprego..."E Tb fazíamos as nossas: " A BA JUR, A PA GA DO, o abajur para cegos, cegos, cegos..." ou (politica/te incorreta?) "Projeto Minervino", q era o nome do jardineiro q trabalhava em casa; "Eu quero saber +, preciso ser alguém, mas o projeto Minerva não servfe pra ninguém...". Tudo isso gravado em fitas. Era o programa da "Radio Trançal", o nome da chácara onde morávamos. Havia uma programação extensíssima... tudo gozação. Anos 73/74, o + velho da turma, meu irmão e diretor geral, tinha 9 prá 10 anos. Putz, qta lembrança boa! Ah eu era mera coadjuvante, só fazia o coro! Beijo.

Lord Broken Pottery disse...

Sibila,
Todas essas lembranças são muito boas. Acabo de recordar a Elis cantando: "A primeira coca-cola foi, me lembro bem agora, nas asas da Pan Air...". Era, como aparece em outra música, o tempo da lua na televisão.
Beijão

Anônimo disse...

Meu querido Lord Rei dos Cacos,

Há tempos ando te lendo, te sentindo, te redescobrindo. Tentava te dizer alguma coisa, mas quem disse que conseguia enviar algum comentário? Total incompetência...
Agora, graças à lição-socorro enviada por e-mail, vamos lá.
Começo te dizendo que você tá escrevendo lindamente. E confesso: te leio pensando que seu pai deve andar se emocionando com você.
Não se encuque tanto com a morte. As pessoas devem continuar por aqui, cada uma à sua maneira. Tenho certeza de que uma das maneiras que seu pai -cara mais que inteligente- encontrou pra não abandonar a roda foi a de continuar com uma de suas mais marcantes características: a de leitor viciado.
Ele tá te lendo, menino, ele tá te lendo.
Beijo encantado
Vivina

Lord Broken Pottery disse...

Vivina,
Você não calcula com que emoção encontro suas palavras por aqui. Você é e sempre será minha madrinha literária, aquela que primeiro me leu fora da família, e que sempre foi gentil comigo. Ouvir de você, escritora que admiro tanto, que estou escrevendo lindamente, faz com que meu ego fique enorme. Vou ficar muito nojento nos próximos dias, até que as suas palavras se aquietem dentro de mim.
Beijão

Sibila disse...

Lord, se me permite ? - um recado para Vivien: acho q a gente já se conheceu antes (virtualmente) noutras paradas de blogs, ou tô enganada? E tenho a impressão q rola em mtos assuntos uma identidade. Sabe q sou (ou fui - ainda ñ me decidi) historiadora? Cheguei a dar aulas! Bjos empáticos e simpáticos! (ñ sei pq ñ consegui acessar seu blog). Ô Lord, thanks a lot!

Lord Broken Pottery disse...

Sibila,
Também pensei, um dia, em estudar história. Teria sido mais feliz, tenho certeza.
Beijão

Eduardo P.L. disse...

Lord, cheguei atrasado, e tenho pouco a acrescentar, tudo já foi dito.Belas histórias, e contadas por você tomam um colorido especial.

Lord Broken Pottery disse...

Eduardo,
A casa é sua. Aqui você não tem hora.
Abração