quinta-feira, maio 10, 2007

Food For Tought

Caetano Veloso é sem dúvida um cara instigante. Além do trabalho que realiza há anos como compositor e cantor, diz sempre alguma coisa que nos faz pensar. Certo ou errado, estimula o debate. Essa qualidade é para mim relevante, próxima das outras já citadas, as de artista.
Li recentemente comentário dele sobre a quantidade excessiva de canções. Será que haveria um limite? Poderíamos atingir um dia o estado de saturação? Estaremos fadados ao fim do novo?
Não pude deixar de me arrepiar com a afirmação. Lieratura, música, pintura, todas as artes, estariam fadadas ao fim. Os críticos e os próprios artistas decidiriam, em algum momento, que o melhor já havia sido criado. O novo seria considerado falta de modéstia, pretenção, ultraje à beleza já produzida. E já que andei falando em ciúme, ninguém mais escreveria versos como:
Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia
Tudo esbarra embriagado de seu lume
Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia
Só vigia um ponto negro: o meu ciúme
O ciúme lançou sua flecha preta
se viu ferido justo na garganta
Quem nem alegre nem triste nem poeta
Entre Petrolina e Juazeiro canta
Velho Chico vens de Minas
De onde o oculto do mistério se escondeu
Sei que o levas todo em ti, não me ensinas
eu sou só, eu só, eu só, eu
Juazeiro, nem te lembras dessa tarde
Petrolina, nem chegaste a perceber
Mas, na voz que canta tudo ainda arde
Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê
Tanta gente canta, tanta gente cala
Tantas almas esticadas no curtume
Sobre toda estrada, sobre toda sala
Paira, monstruosa, a sombra do ciúme

É o que acho desse pensamento. De alguma forma é monstruoso.

23 comentários:

valter ferraz disse...

Lord, o ciúme é um sentimento que faz parte da natureza humana, impregnado n!alma como um virús alí instalado, sorrateiro. Podemos passar toda uma vida convivendo com o "de cujus" sem nada transparecer, a não ser um outro episódio que não reputamos como ataque do mesmo. Mas é. Cedo ou tarde há de se manifestar e maltratar as relações humanas. Existem pessoas que têm ciúmes até de sí próprios, debatem-se e acabam por se fechar numprocesso auto-destrutivo.
Precisamos descobrir como desativar o mecanismo. Só isso.
Ah! não gosto muito de Caetano Veloso não, sei que soa quase como heresia mas fazer o quê?
Um abraço forte
(PS: acabo de receber um comentário da Vivina que me deixou todo babão. Essa internet...)

anna disse...

gosto de absolutamente tudo que ele canta - sou fã mesmo - muito mais do que o que diz. a princípio.
algumas vezes rejeito de cara as posições que toma, mas aquele olhar tão diferente do meu, acaba abrindo um horizonte no meu pensamento que ainda não percorri. isso o torna uma pessoa vital prá minha reciclagem. assim como meus jovens filhos e suas questões.
e lord, do ciúme quero distância!
sai prá lá! xô!

anna disse...

preciso me corrigir: odeio leãozinho. acho essa música um porre total!

valter ferraz disse...

Lod, corrigindo: não gosto das músicas do Caetano. Como pessoa não posso avaliar. As posições que toma em determinados momentos me deixam confuso.
Espero ter explicado.]
Abraço

Silvares disse...

Demasiada sensibilidade, a coisa toda à flor da pele, nem sempre é sinónimo de sabedoria, muito menos de clarividência. Em Portugal há um dito meio estranho: "Cantas muito bem mas não me alegras." Eu interpreto este dito como uma separação entre o artista mais a sua obra do ser humano mais a sua vida. As duas coisas não têm de coincidir. Um grande artista pode ser um homem banal e o contrário também não será mentira.

GUGA ALAYON disse...

assino embaixo os comentários da anna inclusive sobre aquela bichice de Leãozinho.
abç

GUGA ALAYON disse...

...e completo. O cara é genial.

peri s.c. disse...

Caetano sempre é bom cantando ( em português ), quase sempre é bom compondo, e raramente é bom falando.

denise disse...

Ah, eu gosto dele! Assim, bem de mansinho, com aquele jeitinho baiano, entende! Adoro as letras de suas canções que costumo usar sempre em minhas aulas.
A arte acabar? Nunca! Pois se ela é o retrato da vida. A menos que esta se acabe antes.
abraço, garoto

Eduardo P.L. disse...

Lord, Caetano é bom em tudo. Um gênio. O mais inteligente deles todos. Concordo com a Anna e Guga, aquela do Leãozinho, não dá! Todo gênio escorrega um dia!E discordo do Peri, ele quando pensa alto: fala! só diz coisas da maior importância social, política, e cultural.

Lord Broken Pottery disse...

Valter,
O tema que quis discutir referia-se às declarações do compositor e cantor, afirmando que todas as canção já haviam sido compostas. Assim existiria um limite para a produção artística. O ciúme entrou apenas para ilustrar, mostrando uma beleza feita por ele próprio.
Quanto à Vivina, você tem motivos de sobra para sentir-se envaidecido.
Abração

Anna,
Gosto desses olhares diferentes. Eles nos fazem pensar, crescer.

Silvares,
Tenho discutido muito a separação da obra do artista. Nem sempre eles tem vida e produção caminhabdo no mesmo sentido. Acho, porém, muito difícil fazer essa distinção, embora seja ela necessária.
Abraço

Guga,
Também não gosto de Leãozinho (enjoei), também considero o baiano um gênio.
Abraço

Peri,
Não sei... O que ele fala, às vezes, provoca boas discussões. É sempre bom termos um cara polêmico nos obrigando a pensar. Lembra da interessante briga que teve com o Paulo Francis?
Abraço

Denise,
Foi exatamente o sentido do que quis discutir. Também não acho possível a arte acabr. Não considero que todas as canções já tenham sido feitas.
Beijo

Eduardo,
Tendo mais para concordar com você do que com o Peri. Mesmo quando fala bobagens, e às vezes escorrega, nos obriga a discutir, a pensar.
Abraço

james disse...

Enquanto houver criação temos arte, esta só acabará quando começar a imitação (de sua obra anterior). Não é mesmo?

Parabéns pela excelência deste blog.

Um abraço.

peri s.c. disse...

Ok, exagerei um pouquinho, altero : "de vez em quando falando".
E premonitório, com o comentário que eu ia fazer aqui, hoje no caderno 2 do Estadão, Caetano comenta muito lùcidamente a confusão no show dos Racionais da Virada Cultural, levando o assunto para ótica do trabalho músical que eles e outros do gênero fazem, e as contradições que o rap tem de enfrentar por aqui . Perfeito.

Cristiane disse...

Lord...
Obrigada pela visita...
Apesar de achar o ciúme realmente algo doentio, acho tb que ele faz parte da natureza humana...
As artes e a criação são infinitas..
Um bom fim de semana, Crisssss..

Marcio Gaspar disse...

A entrevista do Caetano hoje na Folha é tb muito boa e engraçada. Ele dizer, p.ex., "tenho um temperamento mais rebelde que o Lobão. Ele é legal, mas um pouco conservador", é ótimo! E se contrapondo a Platão (e ficando ao lado de Montaigne), em relação à velhice: "Jamais vou considerar minha decadência sexual como uma virtude". Haha, muito bom! Mas é verdade... o velho baiano, por falar muito, acaba tb falando muita bobagem. Ele é gênio, sim, mas de vez em quando dá vontade de dizer: Volta pra garrafa!

Lord Broken Pottery disse...

James,
Obrigado por suas palavras, já fui lá no Reflexões, gostei e irei linkar.
Abraço.

Peri,
Ainda não li o artigo. Acredito que deva fazer, no mínimo, pensarmos.
Abraço

Cris,
O ciúme aqui entrou apenas como ilustração. Bom findi procê também.
Beijo

Marcio,
Boa tirada! Também tenho vontade de mandá-lo voltar pra garrafa às vezes.
Abração e volte sempre!

anna disse...

concordo com ele na questão da velhice: o que na decreptude, física e intelctual tem de bom?

valter ferraz disse...

Lord, realmente acho que voltei meus olhos para o não essencial no texto.
Mas acho que Caetano não tem razão não. A criatividade humana não tem limites. Vai e volta. Às vezes vivemos épocas menos produtivas, mas depois vem outra onda, novos momentos, outras criações.
A vida sempre se transmuda, A arte caminha junto. Todas as formas de exercê-la.
Vivemos hoje uma era pobre, mas sei que se renovará.
Quem viver, verá.
Um abraço forte

Lord Broken Pottery disse...

Anna,
Só não podemos confundir velhice com decrepitude. A velhice, desde que com saúde, pode ser maravilhosa.
Beijo

Valter,
Será que vivemos uma época artística mais pobre? Não sei se estou convencido. Não seria saudosismo? A idade nos brinda com essa espécie de culto ao passado que nos atrasa. Passamos boa parte do tempo nos deliciando com o que a memória guardou, sem olhar para o futuro. Não seria preguiça de rever nossos conceitos? Nós, que tentamos escrever, somos prejudicados segundo essa ótica. É claro que Machado foi maravilhoso, mas será que não existe gente no Brasil escrevendo bem?
Escrevi isso para mim mesmo, pois tendo a pensar como você.
Grande abraço

Vivien disse...

Caetano é incrível quando canta e chatérrimo quando fala. O Verdade Tropical é gostoso de ler, mas quando ele ataca de "filósofo" é grotesco.
Quanto ao ciúme, eu confesso e repito, eu tenho mesmo. Ciúmes de irmãos, de amigos, de livros, do meu filho, dos meus amores. Tenho mesmo, mas não piro.

Lord Broken Pottery disse...

Vivien,
Reparei que você não colocou nenhuma das músicas dele em seu blog. Qual seria a sua eleita?
Beijo

Vivien disse...

Lord, ainda faltam muitas pra completar as 39 prometidas.Ele já está lá, guardado.;0)

Lord Broken Pottery disse...

Vivien,
Legal. Vou ficar aguardando.
Beijo