quarta-feira, maio 02, 2007

Bargain

Manobra o carro no estacionamento do supermercado lotado. Antes de descer observa-se no espelho retrovisor, aprova o que vê. Estica o braço e pega a bolsa no banco de trás. Enfrenta o burburinho com calma, poderosa, ignorando as filas.
Empurrando o carrinho pára aqui e ali. Cuidadosa, observa atenta as datas de validade antes de escolher os produtos. Abastece sem pressa. Atende o celular, conversa animadamente, coquete. Que idade teria? Difícil adivinhar. Veste-se jovialmente, jeans e blusa curta, barriga quase à mostra. Jóias, perfume francês. Cabelos aloirados tingidos de forma profissional, maquiagem discreta na pele esticada por bisturi competente. O andar elegante equilibra-se sobre saltos de plataforma. Que idade teria?
Na seção dos dietéticos gasta mais tempo. Pão, adoçante, gelatina e barrinhas de cereais. Os olhos pintados passeiam confiantes e interessados, de rapina. Sorriem para o rapaz que corta os frios. Creme para o corpo todo e bronzeador fator de proteção 30. Ela continua. O anel prateado faísca no dedo polegar, dedos finos e esmaltados, vermelhos. Enquanto aguarda a carne no açougue atende outra ligação. Pequena borboleta no peito do pé direito, tatuada. Latinhas de cerveja para completar.
Terminando, dirige-se ao tumulto abafado dos que querem pagar. As filas espicharam mais um pouco. Apenas uma tem tamanho razoável, a dos idosos. Ergue a cabeça abrangendo todo o cenário. Um brilho estranho passeia por seu olhar, segundos de indecisão. Que idade teria? Suspira profundamente. Escolhe o caminho mais fácil.

24 comentários:

Vivien disse...

O mundo se abre, todos se transformam em personagens. Até a bonita perua de idade indefinível.
Estou vendo o mundo assim, fica bem divertido.;0)

Lord Broken Pottery disse...

Vivien,
É também como tem se comportado o meu olhar. As personagens andando pelas ruas acabam chamando demais nossa atenção.
Grande beijo

Mário disse...

Formidável, Lord. Belíssima descrição do exterior invadindo o âmado do ser. Maravilhoso texto. Que lindo ver que o amigo tem este dom de mergulhar nos esconderijos da alma humana. Parabéns!

anna disse...

o caminho mais fácil para essa mulher não seria a fila dos idosos.nem pensar.

Lord Broken Pottery disse...

Mário,
Você me envaidece. Obrigado.
Abração

Anna,
Ela escolheu o mais difícil, o caminho mais fácil. Eu vi.
Beijão

valter ferraz disse...

Lord, Pão de Açucar da Morato Coelho com a Teodoro Sampaio?
Bom, do alto da beleza estética sempre se pode observar melhor o mundo, a patuléia e decidir-se por um privilégio, por quê não?
Não, não aprovo a conduta. Mas entendo que assim acontece.
Poderosa. Indecifrável quase.
No final das contas um tipo cada vez mais comum.
Um abraço forte

Anônimo disse...

Caco Lord,

visualizei a cena inteirinha. Se fossem filmá-la, estaria pronta. Isso é ou não é marca de um texto bem escrito?
Beijo da
Vivina.

jayme disse...

Que delícia de história real.

peri s.c. disse...

Belo texto.


Quem se habilita a um estudo antropo-sociológico à respeito de tais filas especiais para idosos, grávidos , acidentados, desvalidos,tatibitates,esquartejados, transtornados, constipados, e outras categorias menores que julga-se mereçam uma misericordiosa atenção?

Eduardo P.L. disse...

Lord, cheguei tarde e quase tudo já foi dito e escrito. Lindo texto. Por coincidência o Valter narrou outra cena da mesma senhora na crônica de hoje. Ela esta visada!

O Meu Jeito de Ser disse...

Na verdade ouvimos e dizemos tanto isso quando crianças, você é criança para tal coisa, você está grande demais para isso, que gravamos. E aí, numa situação dessas, usa-se o que mais convier.
Diante de jovens que lhe interessam, torna-se mais jovem, atraente, pronta prá busca. Na hora de beneficiar-se com a fila de idosos, envelhece.
Como um camaleão, muda de cor, de acordo com seus interesses de preservação.
Um beijo

valter ferraz disse...

Eduardo, não é amesma senhora não. São vizinhas de bairro, só isso.
Acho que o perfil delas é que é idêntico.
Para ser honesto, só escreví o meu post depois que passei por aqui.
Nesses tempos de plágio, preferí plagiar só a idéia. Thanks, Lord.

denise disse...

Ai, meu Deus! Quer dizer que não posso ir pra fila com a Princesinha no colo??? KKKKKKKKKKKKKK O mundo das conveniências!Cada um com as suas. Já vi o contrário: idosos empertigados que se recusam a ir para a fila dos idosos ou aceitar um lugar no Metrô. Ah, eu aceito! Ando muito cansada, sabe.Adorei isso aqui, me diverti um bocado. Texto delicioso, Lord!
abraço, garoto

GUGA ALAYON disse...

Perfeito. Timing perfeito, digno de uma fila especial mesmo. abraço

Sibila disse...

Passando pra dizer q maravilhada com o texto tão observador do de entro e do de fora; acho q puxou mesmo o avô, apesar de estilos diferentes. Beijo.

Cristiane disse...

Oi Lord...
Perspicaz,observador, nos mínimos detalhes...muito interessante! Intrigante até...rs
Texto magistral...Parabéns!
Obrigada pelas visitas...
Um beijo e um bom fim de semana, Crissssssss....

Lord Broken Pottery disse...

Valter,
Você acertou direitinho o lugar. Só se eu tivesse contado. Não me lembro de tê-lo feito, você deve ser mágico. Foi exatamente nesse estabelecimento, o da Mourato com a Teodoro, que a cena foi vista. Estou perplexo!
Grande abraço

Vivina,
Acontece às vezes comigo. Vejo o texto como um filme. Reproduzo apenas o que estou vendo. Muito bem observado. Obrigado pelo carinho.
Beijão

Jayme,
Gosto muito dessas histórias reais. É só ir lá e registrar.
Grande abraço

Peri,
O estudo provavelmente revelaria o que já sabemos: adoramos fila.
Grande abraço

Eduardo,
Devem freqüentar o mesmo cabelereiro, ou manicure. Ainda não li o texto do Valter. Estou indo lá.
Abração

Aninha,
Gostei da comparação. A conveniência, muitas vezes, nos faz ser camaleões.
Beijão

Valter,
É sempre bom compartilhar idéias, desenvolver temas de formas diferentes. Bacana que você tenha ficado motivado a escrever também.
Estou indo ler.
Abraço

Denise,
Acho que você deve ter os provilégios que quiser. Peça ajuda à princesinha sempre. Obrigado pelo elogio.
Beijo

Guga,
Obrigado pelo carinho de sempre. Sua opinião é muito importante para mim.
Grande abraço

Sibila,
Bem diferentes...
Beijão

Cris,
Bom findi procê também.
Beijão

valter ferraz disse...

Caro Lord, nada de excepcional.Localizei tua personagem no tempo e espaço(coisa que costumo fazer sempre), em seguida num breve exercício de memória liguei uma coisa à outra. Simples assim.
Devo confessar que conheço bem o lugar. Prestei serviço muito tempo para a Fundação Cinemateca Brasileira. A Casa de Máquinas fica alí no prédio do Pão de Açucar.
E devo ter esbarrado na madame algumas vezes, ela linda em seus saltos altos, anéis brilhantes nos dedos finos e eu no meu macacão cheio de graxa, contingências da vida.
Outro abraço apertado

Mani disse...

Ah, nunca consegui escolher o caminho mais fácil..

adelaide amorim disse...

Lord, vim conhecer seu blog e gostei muito. Quero também agradecer a solidariedade que você ofereceu naquele comentário lá no Papo de Botequim. Você já deve saber que se tratava da Li Stoducto, querida amiga nossa que foi embora no sábado 8 de abril. Acho que até hoje ninguém teve coragem de postar de novo lá no Papo. Um abraço grande.

Lord Broken Pottery disse...

Valter,
Já estava achando que você era uma espécie de Valter Potter, o mago das praias. Agora entendi. Foi um pouco de coincidência, elas existem.
Abração

Mani,
Você faz muito bem. Melhor não dar bandeira. Tem sempre alguém olhando, metido, que resolve escrever a cena.
Beijo

Adelaide,
Percebi o que havia ocorrido, imaginei mais ou menos, fiquei triste também.
Grande beijo

Silvares disse...

Uma beleza tropical como essa não anda pelos supermercados destas bandas. Ou, se anda, eu não vi. Também não sou tão distraído assim!
Parece guião de anúncio televisivo.
:-)

Ery disse...

Lord, narrativa perfeita e como já foi dito, um verdadeiro "roteiro pronto". Quanto à atitude final, é digna mesmo de um belo estudo. Chama-me também, mais a atenção, os casos de "beneficiários aptos" que preferem o lugar comum, abdicando do preferencial. É interessante. Paradoxal. Coisas intuição? Coisas da vaidade?

Lord Broken Pottery disse...

Silvares,
Você é gentil com nossas mulheres. Tenho certeza que há aí, em plagas lusitanas, belezas ibéricas equivalentes.
Grande abraço

Eri,
Deve ser vaidade. Afinal vivemos em um mundo cada vez mais movido pela vaidade.
Abração