quarta-feira, agosto 08, 2007

Gloomy

Aos quatorze às vezes sentia-me estranho. Sem saber por que surgia uma vontade enorme de estar sozinho. Recolhia-me.
O quarto era grande. Um retângulo comprido dividido em dois ambientes. Em um deles duas camas com os respectivos criados-mudos; ao pé delas, estantes conjugadas com escrivaninhas onde meu irmão e eu estudávamos. No outro, um sofá-cama forrado com tecido xadrez, a cor vermelha predominando. Armários embutidos ocupando toda uma parede.
Fechando lentamente as janelas, observava a casa defronte tentando ver as irmãs gaúchas. Um aceno que fosse me encheria de esperanças. Eu achava a loirinha muito simpática. A morena, mais velha, cheia de charme. Aquele jeitinho de falar, cheio de tus e bás, mexia comigo. Andava louco para arranjar namorada.
Mergulhava na escuridão. Punha um long-play na vitrola e deitava com a barriga para cima, olhando o teto com os olhos fechados. O primeiro disco de Maria Bethânia era o mais ouvido. Lançado em 1965, três anos depois continuava me fazendo companhia. Um pouco gasto, começando a chiar sob a agulha, ainda trazia inspiração. As letras das músicas acompanhando os sonhos, ajudando, alimentando a fantasia.
*
**********É de manhã
**********Vou buscar minha fulô
**********A barra do dia ê vem
**********O galo cocorocô
**********É de manhã
**********Vou buscar minha fulô
*
Um dia ainda teria minha fulô. O galo levava ao sítio, interior. Caboclinha com vestido de chita.
*
**********
Meu desespero ninguém vê
**********Sou diplomado em matéria de sofrer

*
Será que ninguém via? Assim escondido, trancado em plena tarde, era difícil. Mamãe aparecia para irritar-me. Tinha que levantar para abrir a porta.
- Está doente, filho? - pondo a mão em minha testa.
*
**********
Depois que aquela mulher
**********Me abandonou
**********Não sei porque
**********Minha vida desandou
**********Meu canário morreu
**********A roseira murchou

*
**********
Meu papagaio emudeceu
**********O cano d’água furou
**********E até o sol por pirraça
**********Invadiu minha vidraça
**********E o retrato dela desbotou
*
Abandonado. Imaginava meu cachorro sem latir, o rabo entre as pernas, a mangueira do quintal vazando. As azaléias tristes, sem vida. O avô desbotado na sala de jantar. Periquito tombado na gaiola. As perninhas para cima. Tudo depois que Bruna foi embora.
*
**********
Você chegou no carnaval
**********Linda
**********Canção de amor no carnaval
**********Linda
*
Bahia. Férias. Mortalha. Carnaval. Menina linda com nome complicado. Valdelice. Delícia. Valdelícia.
*
**********
Nunca mais vou querer o teu beijo,
**********Nunca mais
**********Nunca mais quero ter teu amor,
**********Nunca mais
*
Sabia que era mentira. Se Luana me olhasse, se aproximasse os lábios, não agüentava. Beijava mesmo. Aqueles olhos de lua que clareavam o travesseiro. Nunca mais era para sempre. Não ia conseguir. Muito tempo. Bom de cantar, de dizer. Difícil com Luana. Impossível. Solidão doía.
*
*********
Na minha voz
*********Trago a noite e o mar
*********O meu canto é a luz
*********De um sol negro em dor
*********É o amor que morreu
*********Na noite do mar
*
Murros na porta. Rogério gritando:
- O quarto também é meu!
Ainda teria meus próprios domínios. Sem ter que dividir com o irmão. Quem sabe aquele fedelho não morria? Entrava, apanhava alguma coisa, para logo sair. Só para irritar-me mais um pouquinho. Sempre irônico:
- Na fossa, boneca?
*
**********
Glória a Deus Senhor nas altura
**********E viva eu de amargura
**********Nas terra do meu senhor
*
Olhando o pôster de Guevara, escondido na penumbra, esperava com fé dias melhores. Os ricos menos ricos, os pobres menos pobres. Sem perder a ternura. Liberdade, igualdade e fraternidade. Carcará!
*
**********
Anda, Luzia
**********Pega um pandeiro
**********Vem pro carnaval
**********Anda, Luzia
**********Que essa tristeza
**********Lhe faz muito mal
*
Achava Luzia um nome lindo. Quando casasse teria duas filhas: Luzia e Laura. Luzia parecia acender a pessoa. Luzia iluminada. Laura de Laura Ingalls Wilder. A escritora preferida.
*
**********
Batuque é um privilégio
**********Ninguém aprende samba
**********No colégio
*
Verdade. Oficialmente no colégio só tinha aprendido hinos. Adoravam hinos naquela época. Já podeis da pátria..., que entendia japonês. Sambar, só sambava nas notas. Às vezes dançava feio. Quando tocava Feiticeira, acabava chorando. A história da moça que adormece ninando a bonequinha e acorda para vê-la no chão quebrada, separada em mil pedaços. Dito assim parecia bobagem. Não era.
*
*********
O samba é a corda e eu sou a caçamba
*
Só muito mais tarde fui entender o sentido dos versos. Ouvi dizerem de minha amizade com o Rafaelli: "Onde vai a corda, vai a caçamba". Entendi o sentido. Que caçamba era um balde para tirar áqua de poço, só descobri adulto.
*
*********
Mora na filosofia
*********Pra que rimar amor e dor
*
O amor como um fogo ardendo sem doer. Estava no soneto que aprendi. Nunca esquecia. Tantos amores e nenhum.
Ouvia música a tarde toda. Quando acabava o disco, repetia. Versos lindos. Caetano, Noel, Batatinha, Caymmi, Benedito Lacerda, João do Vale e Monsueto ensinando o menino que eu era.
À noitinha, sentia o vazio no peito abrandar. Descer para o estômago. A confusão de sentimentos em que estava mergulhado sofria violento estímulo externo. O cheirinho da comida de Alice invadia o quarto sem pedir licença. Abandonava correndo o exílio voluntário. Fome. Não havia fossa que resistisse.

64 comentários:

marilia disse...

Lord, primeiro quero agradecer sua presença e seus comentários, sempre prudentes e coerentes...
AGORA, esse texto...que delícia de adolescência, angustia, sonho tesão,...
conto na penumbra, me lembrou o disco da betania, na boate barroca,
adorei a tristeza de tempo parado, no paragrafo do pobre periquito morto,com as perninhas para cima...
lindo.
obrigada pelo prazer deste conto.

Alice disse...

Tô suspirando aqui!
Quanta paixão!
Vou postar no blog um texto de amor que eu fiz pro casório do meu irmão.
Delicioso esse texto!
Desculpas por ser intrometida,mais quem era a Alice que vc fala no texto?rs..
Minha xará!rs..
Beijoss!

Eduardo P.L. disse...

Êta, idadezinha danada!

james disse...

Que texto lindo.

Um abraço.

Anjo Negro disse...

Cara, e pensar que só falta alguns meses para eu completar 14 anos óò
Mas hoje os únicos estresses que tive foram as provas. Uma de matemática e outra de história. Eu vou tirar 7,0 ou 8,0 nas duas. Mas depois eu faço a PC e recupero.
Ai, me perdi. Já to falando coisa nada ver XP
Bem legal o texto!
:}
:*

Marion disse...

Que lindo post! Adorei a letra comentada. Como boa romântica achei sues comentários belíssimos.

Beijos!

Ricardo Rayol disse...

Fenomenal. Devaneia com firmeza por uma idade das mais ingratas. (como sou educado vou deixar o resto de lado rs)

Lord Broken Pottery disse...

Marília,
Eu é que agradeço. Você não imagina o prazer que suas palavras me provocam.
Beijo

Alicinha,
A Alice, já falecida, deve estar cozinhando para Deus, se houver um céu, era a cozinheira lá de casa. Dessas mulheres gordas, alegres, sempre de bom humor, nunca comi nada que se comparasse com o que ela fazia. Pessoa de quem tenho muita saudade.
Beijo

Eduardo,
Concordo. Idade difícil mas que deixou saudade.
Grand abraço

James,
Vindo de você é um grande elogio.
Obrigado

Anjo,
Sete ou oito? Quando eu tirava essas notas era milagre (ou cola, não conta pra ninguém). Você é boa aluna.
Beijão

Marion,
Fico muito feliz com o seu comentário, sério.
Beijos

Ricardo,
É sempre muito importante saber que você gosta do que escrevo.
Abração

james disse...

Grato pela correção.

Acho que agora ficou certo.

Um abraço.

Lord Broken Pottery disse...

James,
Ficou. Grande abra�o!

Vivien Morgato : disse...

Lord, a angústia da adolescência é mesmo terrível, tudo é intenso, a paixão é de matar, a saudade é insuportável e ninguém nos entende...Crescer é bom.
LIndo texto, beijos.

Eduardo P.L. disse...

Lord, dessa idade tenho muitas lembranças mas saudade não! Era uma anciedade, e angústia danada!

Lord Broken Pottery disse...

Vivien
Dizem que são os hormônios em ebulição. Tem gente que guarda amargas lembranças da época. Pra mim foi bom, tenho saudades.
Beijo

Lord Broken Pottery disse...

Eduardo,
Acabei de responder à Vivien e toquei nesse assunto. Para mim, fora a preocupação com as notas, sempre mais baixas do que deveriam, o mundo era uma maravilha. Guardo do Dante Alighieri, da escola e dos colegas, as melhores lembranças. Para mim era uma espécie de paraíso.
Grande abraço

O Meu Jeito de Ser disse...

Alguém que escreve com a emoção é assim.
Vi o post do Guevara, passeei pelos seus sonhos, que foram de Luzia à Luana.
Sentí o cheiro bom de tempero da saudosa e amada Alice, que de tão bom, tinha o poder de curar até uma grande fossa.
Aliás, porque será que todo adolescente gosta tanto de fossa?
Creio não haver ninguém que possa afirmar não ter sofrido muitas dores de cotovelo nessa fase de vida.
O amor platônico é o eterno companheiro, só vai embora, quando uma grande e nova paixão muda de nome.
Mas também tenho saudades da minha adolescência, nenhum problema mais sério, apenas coisinhas de quem estava se abrindo para a vida.
Muito lindo o post, agora desejar que o pobre Rogério morresse foi cruel.
Beijos e parabéns pelo texto.

Lord Broken Pottery disse...

Aninha,
Ele não morreu, é meu querido e amado irmãozinho. Obrigado por cada uma de suas palavras.
Beijo

valter ferraz disse...

Caro Lord,
Na fossa, boneca? É, um irmão de doze anos sabe mesmo provocar. Aos catorze, tudo é imediato, intenso e angustiante. E nossas vizinhas, as mais belas.
Com o tempo, perdemos a pressa, diminui a intensidade e descobrimos que nossas companheiras, sim são as melhores companhias.
Texto preciso, enxuto. Como sempre.
Grande abraço

Anônimo disse...

Lord, querido Caco,
o texto, lindo passeio por um passado ainda não muito distante, tem sua marca, misturando, em doses certas e certeiras, fantasia e realidade.
Como tive o prazer de particípar, em doses alternadas, dessa época de sua vida, quero te dizer que, nos momentos da realidade, seu texto é tão real, que cheguei a ouvir as vozes do Rogério e de sua mãe (sem falar na da Bethânia e nesse disco, em especial. O meu só não furou em "Anda, Luzia" porque disco não fura, sabia?).
Rogério, Marise, Mariana, você, seu pai, Olívia, Alice.
Os almoços de domingo com vocês, couve cozida inteira, à maneira nordestina, tão diferente da minha, picadinha, mineira, e tão gostosa quanto. Alice nunca errava.
Saudade é saudade, meu amigo. Tenho a impressão - ou ilusão - de que podemos diminuí-la, quando compartilhada.
Beijo compartilhado, então.
A amiga,
Vivina.

Maria Helena disse...

Lord,
passear pela adolescência dessa forma rica em detalhes, mistura de emoções, sonhos e fantasias é presentear com um post tão gostoso.
Eu curtí bastante a minha e também tenho muitas saudades.
Bjs

GUGA ALAYON disse...

Fundo musical perfeito pra fome da adolescência. Sensacional.
abçs

Lord Broken Pottery disse...

Valter,
Aos quatorze tudo é mesmo muito intenso só que, no meu caso, feliz. Lembro com muita saudade dessa época.
Grande abraço

Vivina,
Achei curioso você falar em passado recente. Já não é tanto assim, pode contar quase quarenta anos. Esse disco da Bethânia, o primeiro, encontrei outro dia, feliz da vida, em CD. Ainda ouço de vez em quando. A música tem para mim a magia de trazer o passado de volta. Quando ouço essas canções citadas aí em cima, volto à casa da rua Tamanás, em Pinheiros. Chego a sentir o gosto da feijoada da Alice e no quintal, como sempre, vovó Olívia está dando banho no cachorro, lembra do Pix?
Beijão

Maria Helena,
Pelo que leio lá no Caminho Suave, percebo que a sua infância foi muito feliz. O próprio título do blog já é revelador. Mostra que a trajetória foi tranqüila.
Grande beijo

Guga,
E que fome, de quase tudo.
Grande abraço

ana vidal disse...

Querido Lord,

Já está quase tudo dito, e bem dito, pelos seus comentaristas habituais. Este seu texto é a delícia do costume: claro, visual e intenso.
A adolescência é uma fase sofrida e maravilhosa, em iguais doses. Felizmente que crescemos e descobrimos que "l'amour platonique est toujours plat... et jamais tonique!"

grande beijo
ana

Anne Baylor disse...

Que maravilha..
Parafraseio de primeira.
Adorei.

Bjs

=]

http://voxpopulidei.blogspot.com

Anônimo disse...

Lord Caco,
acontece que, pra mim, você é um menino!
Sei que você tá grisalho (temos fotos juntos que não nos deixam mentir), quase quarenta anos -meu Deus!- se foram, mas, pra mim, você continua o filho da Marise e do Ricardo, que conheci na Rua Tamanás, onde Olívia dava banho no Pix, paixão da casa, como não me lembraria?
Já que desenterramos reminiscências, ainda tenho o cartão que seu pai me deu, na 7 de Abril, no dia em que o conheci. Eu ia começar o trabalho sobre o Graciliano e,após uma primeira conversa na agência, vimos que precisaríamos de muitas, e aí, nesse cartão, ele anotou o endereço da Tamanás, onde fui na semana seguinte e de onde, de certa forma, nunca mais saí, já que convivemos em todas as casas em que vocês moraram, sem esquecer os dois apartamentos.
Vou procurar o CD da Bethânia. Ainda tenho o de vinil, mas só o ouço quando tomo o rumo da fazenda, em Minas, sempre com uma freqüência menor do que desejaria.
Agora, além de me lembrar dos meus primeiros tempos em São Paulo (vim pra cá em 68), quando ouvir "Anda Luzia" e "Três Apitos"(é, o disco quase furou aí também, não disse ontem, pra não escrever demais, mas hoje estou assumindo o exagero), vou me lembrar também de você, que o descobriu aos quatorze anos.
Ah, só mais isso: Você gosta de "Quatorze anos", do Paulinho? Outro mundo, outro tema, outra realidade, mas é lindo, né não?
Beijo antigo
Vivina.

adelaide amorim disse...

Olha, parece que a gente está revivendo aquele tempo, que nem sei se era tão bom como parece agora. Lembro de muito sofrimento na adolescência, muita incerteza, uma insegurança diante da vida. E no entanto, agora tudo parece tão doce! Um abraço, Lord.

Cristiane disse...

Caro Lord,
Vivo dizendo e aqui repito: Ler-te é um grato presente!
Que texto lindo...

Me fez voltar no tempo de adolescente, mas as músicas da minha trilha sonora eram da Legião Urbana...rs...a solidão a mesma e a vontade de abraçar e entender o mundo também...a idade veio e no meu caso ainda passo por esses momentos, será que um dia ainda deixarei de não vivê-los?! Mão sei...rs
Lindo Lord, lindo mesmo...

Um maravilhoso fim de semana, Beijo, Cris

fermarpin disse...

Milord
Gloomy ? Significa atacado por nostalgia, nevoeiro cerrado ?
Aqui não.
Aqui é uma lágrima que treme no canto de um dos seus olhos.
Aqui Milord está chorando como qualquer brasileiro ou português cheio de saudades.
Diga a verdade, Milord.
Gloomy é lágrima de saudades.
Não é ?

Anônimo disse...

lord, adolescência é barra mesmo. ô época de inadequação plena.
músicas de amor impossível e de dor de amor faziam a festa naquele mazoquismo permanente.
saudade? nenhuma.

anna

Sandra disse...

Minha geração não teve essa refer~encia musical para marcar amores da adolescência. Os valores e atitudes mudaram tanto... Perdemos tanto e nossos descendentes perderão ainda mais. Ouvia meu pai e mãe falando das músicas da época deles e sinto uma ponta "imensa" de inveja. Sorte tem você por lembranças tão caras.

Beijos

fermarpin disse...

Ah ! Sandra : BRAVO !

Lord Broken Pottery disse...

Ana,
A gente descobre muita coisa depois que cresce. Os amores platônicos são pra sempre, de um jeito diferente, divertidos, bem românticos, com gosto de drops de aniz e de matinê de cinema.
Grande beijo

Anne,
Bom receber você. Já coloquei um link aí do lado. Retribuirei a visita.

Vivina,
Você observou uma coisa que sempre me chamou a atenção. O número de mudanças que visemos. Diversas casas, dois apartamentos, mamãe e papai gostavam de se mudar. Eu sou diferente, gosto de criar raízes. Comprei um apartamento quando casei (demorei alguns anos pagando), consegui vender e comprar um melhor. É lá que pretendo morrer (se é que a gente pretende morrer).
Se conheço a música do Paulinho? Sei a letra toda. Tem muito das conversas que tinha com meu pai. Ele tinha os planos dele traçados pra mim, não fui muito capaz de ter os meus próprios.
Beijão

Adelaide,
Não sou muito bom em lembrar coisas ruins. Tenho memória seletiva. Acabo esquecendo os momentos menos agradáveis. É claro que a adolescência é uma época de muita insegurança. A gente olha pra frente, e o caminho a seguir é imenso, sem conseguir ver direito onde vamos chegar. Só que agora, refazendo a trajetória que trilhei, fica um carinho enorme, e muita saudade. O saldo é muito positivo.
Beijo

Cris,
Gosto muito da Legião. A letra de Eduardo e Mônica, por exemplo, resume a história de muitos que conheci. É impressionante como nos vemos nela. Incrível certa capacidade que as letras de músicas têm de nos tocar. Acho que essa vontade de entender o mundo, pelo menos para mim, nunca morreu.
Grande beijo

Fernando,
Claro! É difícil a gente saber direito a razão de escrever alguma coisa. O texto sai às vezes meio impertinente, sem pedir licença e rebelde, tomando o rumo que quer. Não posso negar, porém, que escrevi cheio de saudade. As lágrimas, e elas me vêm sempre muito fácil, teimavam, sim, em querer rolar. A assepção do gloomy do título abrange os diversos significados de nostalgia. As saudades do autor em várias fases. Em estado bruto hoje, puramente nostálgica, e melancólica ontem, adolescentemente na fossa.
Grande abraço

Anna,
Acho bacana você ter usado a palavra masoquismo. Acho que o adolescente é, sim, masoquista. Na medida em que há um certo prazer no sentimento exacerbado, naquela fossa muitas vezes estudada, buscada, sofrida de propósito.
Beijão

Sandra,
Será que é uma coisa de geração? Seria tão triste...
Grande beijo

Fernando,
Será?
Abraço

marilia disse...

Ola Lord!
Voltei para ver se tinha conto novo, mas reler o que vc escreveu hoje pela manhã,me fez ficar menos tristinha, por que relembrei ,outra vez, alguns momentos bons, ao relembrar as canções...
bjão e boa sextafeira!

Lord Broken Pottery disse...

Marilia,
Já mandei os livros, devem chegar hoje. Fica tristinha não!
Beijo

claudio boczon disse...

do balacobaco!

nessas situações, minha trilha sonora era o famigerado "Dark side of the moon".

saco era ter que levantar para virar o disco, quebrava todo o clima... mas o álbum na íntegra parecia fechar todo o ciclo: os motivos, a fossa, as alternativas e uma nova tentativa.

abraço

fermarpin disse...

SANDRA
Fiquei a pensar em si.
É impossível que não haja aí na sua cidade um casal de velhinhos que em novos tenham comprado uma boa aparelhagem de Hi-Fi (estereofónica) e que a possuam ainda em bom estado com alguns discos dessa época.
Procure. Num dia em maré de sorte talvez encontre, talvez a convidem, talvez você ouça, por exemplo, canções do francês Gilbert Becaud em discos de 33 1/3 rotações.

Gilbert Becaud nasceu no dia 24 de Outubro de 1927 – há pouco tempo, cinco anos depois de mim ! - e naquele tempo já longínquo os cançonetistas franceses cantavam em francês, os versos eram sempre bem elaborados e as melodias exerciam uma espantosa acção consoladora.
L’important, c’est la rose !… C’est la rose l’important...

Não se ouvia distraidamente, prestava-se atenção, estabelecia-se o silêncio, escutava-se, escutava-se cada sílaba no seu som, e o bater de cada coração entrava noutro ritmo, era-se possuído, a Arte impunha-se.
Talvez Gilbert Becaud esteja agora por aí em suportes modernos, até talvez esteja alcançável na Internet, mas a Sandra não se fie. Os técnicos, os engenheiros do som, dificilmente resistem à tentação de "modernizar aquilo" ao realizarem novas edições.
A Sandra procure vizinhos velhinhos que possuam uma aparelhagem de boa qualidade, discos de 33 1/3 rotações com canções de Becaud, escute-as e depois fale comigo.

MILORD
Passou-me a bola pelo alto para eu a receber com a cabeça e continuar o jogo, mas eu não posso ocupar-me dela, preocupado como ando em prever como as próximas gerações caminharão ao sol, que ar respirarão, que alimentos comerão, que água beberão.

Lord Broken Pottery disse...

Claudio,
Cuidado! "Do balacobaco" denuncia um pouco a sua idade, fato confirmado pelo gosto "pinkfloydesco", do qual compartilho inteiramente. Lembra: "Teachers, leave them kids alone!". Talvez fosse o grito de guerra de nossa geração.
Abraços

Sandra (complementando o Fernando),
Era uma época em que se ouvia e se entendia as palavras cantadas em francês. Depois, para irritação e inconformismo dos parisienses, coisa que senti na pele, o inglês passou a ser o idioma universal. Cantava-se, também, Édith Piaf e Yves Montand. Só bem mais tarde é que apareceu o Charles Aznavour. Os discos 33 rotações eram pesados, arranhavam e impenavam fácil. Enorme evolução ante os de 78, mais pesados, que chegavam a quebrar.
Grande abraço

valter ferraz disse...

Lord, permita-*me uma impertinência?
Já faz algum tempo queria te pedir. Você podia colocar a tradução dos títulos que posta. Sabe o que é? Eu cabulei todas as aulas de ingles o ginásio, ainda me bato com os procedimentos que exigem um inglesinho básico,
Percebo que o título em inglês dá um clima legal ao texto, mas perco um pouco.
Quebra essa, vai?
Obrigado, mano

lulu disse...

sabe o que é legal?
ler um post lindo.
mais legal ainda?
ir para os comentários e ficar emocionada com os pedaços de vida que aparecem lá (aqui) .

um beijo,
Lulu luana. :-)!!!

Van disse...

Genial e intenso.
Como sempre.
Beijuca

Sandra disse...

Minha irmã, 12 anos mais velha que eu, me ensinou muito sobre música. Conheço, aprecio os cantores da geração dela. Trago para mim que são "meus" também. Mas quando falo "minha geração" generalizo porque a grande maioria que não teve parâmetros musicais para separar o joio do trigo nessa leva de bandas, cantores e sucessos efêmeros que despencam em nossos ouvidos hoje em dia. Eu, por exemplo, amo Leila Pinheiro, Adriana Calcanhoto... Pergunte para a garotada quem eles conhecem? Banda Calypso ou alguma dessas cantoras? Bethânia? Nem sabem que é... Imaginem então, se essa turma conhece Demônios da Garoa, Dolores Duran e suas rosas, Nelson Gonçalves??? Sinto uma imensa tristeza por essa gente que se apega a “bondes de tigres” e outros lixos.

fermarpin disse...

SANDRA
Eu não penso ficar o resto da vida aqui sentado ao seu lado a chorar baba e ranho de todo o tamanho. Este blog não é meu. Mas esta semana vivi uma aventura que me impressionou.
Uma jovem enviou-me uma gravação audio-visual que o pai fez quando ela estava a tocar piano.
As deslocações da câmara estão perfeitas, as imagens estão focadas e o colorido está aceitável. Mas o som... Passei várias vezes a gravação. A pouco e pouco consegui distinguir um pouco do que na sala estaria a ser ouvido.

Mas antes de continuar deixe-me dizer o seguinte :
Os órgãos (de tubos), tal como os velhos cravos, são instrumentos de tecla inexpressivos. O piano pode ser inexpressivo ou expressivo, conforme a pessoa que estiver a tocar. Com o piano pode-se transmitir o estado de alma do compositor, e também é possível transmitir a “mensagem” que ele terá pretendido deixar.

Pois pude ver que a jovem minha amiga tem a capacidade de através dos dedos, das teclas e dos martelinhos que batem nas cordas, fazer o piano cantar expressivamente. Muita gente que toca piano não é capaz disso.
Fiquei a pensar : "Esta jovem é dotada. Deveria continuar a exercitar-se, ser mais ensinada". Mas logo acordei : "Para quê ? Para tocar jazz ?"

(Fuff !... Desculpe. A Sandra ainda tem aí alum lenço enxuto ? Os meus já estão todos encharcados..)

Ragtime. Lembra-se ? Aquela musica endiabrada que evoluiu para o jazz ?
Lembra-se de The Maple Leaf Rag ?, do pianista e compositor Scott Joplin, preto, que viveu de 1868 a 1917 ?
E dos Negro spirituals ? Lembra-se ?
Os Negro spirituals foram um fenómeno singular : a civilização euro-americana estava a dar asas à civilização africana.

Verifica-se que do contributo dos pretos os brancos retiveram quase apenas o ritmo, e neste a percussão, originária do velho batuque, especialidade do "continente negro", fácil de imitar, que meios poderosíssimos de ampliação sonora tornam hoje ensurdecedor.
Aquela minha jovem amiga irá na onda.

Vá andando, Sandra. Eu vou continuando por aqui mais um bocadinho, até Milord me enxotar como galinha que entrou por a porta da cozinha estar aberta.

Blogue da Magui disse...

Belas lembranças.Naquele tempo era assim mesmo.Com a ditadura sobrou a música permitida.Tivemos que engolir estas chaturas.E sem conhecer outras coisas acabamos acreditando que isso era bom. Separei a tralheira e vendi a um real o disco.Eu ia dar mas o cara disse que só aceitava se pagasse.
Lá no meu blogue,se vc usar o haloscan fica mais fácil para eu te visitar e os meus visitantes porque é só clicar em cima do link.

Claudia Lyra disse...

Essa angústia juvenil que se acaba assim que o estômago fica vazio... é ou não é uma delícia? hauahuahauha...

Lord Broken Pottery disse...

Valter,
Vou ver o que posso fazer. Seria legal se fosse possível clicar-se no título e abrir uma janela com a tradução. Será que é possível?
Grande abraço

Lu,
Pois é. Foi lendo lá que me deu vontade de voltar a ser menino, ter uma professora que me desse temas bacanas pra escrever. Imagino que seua alunos sintam isso.
Grande beijo

Van,
E você minha querida leitora, como sempre.
Beijão

Sandra,
VocÊ não estaria sendo um pouco exigente demais com essa geração? Temos coisas boas sendo feitas, e gente muito atenta a elas. Skank, Pato Fu, Paralamas, Titãs, todos esses caras têm muito valor.
Grande beijo

Fernando, amigo,
Jamais enxotaria você. A casa é sua para que escreva. Nós lemos e aprendemos. É uma honra muito grande receber a sua visita. Achei interessante a pergunta à respeito da virtuosidade da moça. Para tocar jazz? Logo eu que gosto tanto de jazz.
Grande abraço

Magui,
Sou meio ignorante com relação às mágicas possíveis via blog. Faço o arroz com feijão que me foi ensinado, anotado em uma lista que já está ficando meio amarela. Desculpe-me. É um prazer especial recebê-la.
Beijo

peri s.c. disse...

Caro Lord,
belíssimo road-texto musical . Você garimpou várias preciosidades .
Abraço

Lord Broken Pottery disse...

Peri,
Foi o disco da Bethânia inteiro. Vale à pena procurar, é o primeiro dela.
Beijão

valter ferraz disse...

Lord, retribuindo os votos do feliz dia dos pais.
Manera na lasanha, tá? (se não, vai ter que malhar mais ainda)
Abraço forte

O Meu Jeito de Ser disse...

Lord, meu amigo.
Hoje é apenas para lhe deixar um grande abraço pelo dia dos pais.
Sabemos que você foi e é pai.
Os detalhes não contam. Conta o amor e carinho.
Sei que você deve ser amado assim, como o melhor paizão.
Um beijo especial.

Eliana disse...

vixe, foi tudo isso? aqueles shows foram o melhor heim. Baianos na Bahia em seguida Milton em Minas e Diamantina. e aconteceu tudo isso com vc enquanto a música corria solta? ao vivo, ainda por cima!

denise disse...

Recordações... adorei o post, Ricardo! Ah, e cá para nós, esta moçada de hoje não sabe o que é curtir uma fossa, né mesmo? Tempos bons, he he.
abraço, garoto

fermarpin disse...

Milord,
Já viu que, para mim, um dos grandes prazeres está em escrever, e escrever brincando, dando espectáculo. Milord já compreendeu que eu adoro a Commedia dell’Arte. Adoro o riso, embora não seja risonho, adoro a palhaçada, a fantasia, o disfarce, mas isto tendo sempre núcleos de assuntos sérios. Já viu, não viu ?
Mas não viu, porque era impossível ver, que também adoro o diálogo. “Dialogo”. Dois. Negócio de dois. (E em que haja o “logos”...).
Contacto com pessoas através de “Comentários” cansa-me. É muito limitativo. Tanto mais que deve usar-se “linguagem telegráfica”.
A sua resposta, que agradeço, acerca da minha brincadeira a respeito da música ligeira afro-americana (agora mundial) deixou-me imensamente triste.
Milord disse-me duas ou três amabilidades e virou-me as costas. Porque não pode falar-me. Não tem espaço. Não tem tempo. Conversar com o parceiro não faz parte deste teatro.
Milord disse que gosta de jazz e... mais nada !
Que tristeza !
Milord... Milord... Tem aí um lenço de assoar enxuto ? Para eu enxugar os lhos ?
Gostaria de continuar mas não posso.
A galinha sai por onde entrou.
Fernando

peri s.c. disse...

Lord
pressa, pressa, pressa... que ela garimpou.
abraço

marilia disse...

Lord Pottery!
vc se tornou pessoa " de dentro da minha cozinha', como a gente diz aqui em Minas...
acabei de pegar AGORA com o porteir seus dois livros...
a maria julia esta com o pai e ainda não viu

voc~e foi especialmente carinhoso...
quer saber! parabens pelo dia dos pais, e parabéns por ser esse lord ingles tão especial...
alias, não é atoa que adoro conviver com a nobreza ( o valter vai me matar)...rsss
e concordo com vc... se não posso ir pra Blois ou annecy, fico aqui...rssssss
valeu, sobre os livros tenho que acabar de abrir o pacote com muita calma...rsss
bom domingão!!!!
que seus filhos te encham de beijos...
lá vou eu beijar meu velhinho querido...
ciao!

denise disse...

Ricardo, há uma surpresa para você no Roda de leitura. Espero que goste da brincadeira. Juro que não interferi nas opiniões deles.
abraço, garoto

ery roberto corrêa disse...

Lord, reviver emoções tão comuns por também ter vivido coisas semelhantes, fazem da leitura deste seu texto, mais as bondosas palavras que me ofereceu hoje ao comentar no Infinito, parcelas representativas na soma que propricia um dia imensamente feliz. Parabéns pelo Dia dos Pais, grato pela amizade. Forte abraço.

Alena disse...

Lord, me cheirou a José Mauro, quando Zezé também tinha aqueles sonhos de Tom Mix... Amei seu texto... Pensei logo nos meninos de hoje também... a música toca nos i-pod... às vezes é antiga, às vezes ainda fala de dores... mas como que será que estes garotos de hoje sonham? Com suas terezas? Será?

Alice disse...

Lord!
Feliz dia dos Pais!
Que vc possa aproveitar bem com seus filhotes!
Grande beijo!

Anônimo disse...

Lord,
É um privilégio ter tido as nossas emoções moldadas por esses craques MPB.Seu lindo texto me deu votade de revisitar eles todos. Refazendo o nosso 'forever young', onde guardamos as lembranças maiores que o mundo. Kisses, Lady Madonna

Lord Broken Pottery disse...

Valter,
Que o dia dos pais tenha sido maravilhoso. Grande abraço!

Aninha,
Obrigado pelo carinho e delicadeza.
Grande beijo

Eliana, querida, pois é, e eu trancado no quarto. Mas também saía e ia aos shows que você mencionou. Grande beijo!

Denise,
Não tenho do que reclamar. Foram tempos magníficos.
Beijos

Fernando,
Você tem razão, Agora mesmo estou correndo. Entro em mais uma reunião, sabe-se lá quando termina. Gosto, sim, de jazz. Só para dar um exemplo, adoro Miles Davis. Ouço muito esse quase erudito músico. Também gosto de conversar. Envio-lhe meu e-mail para caso queira um papo mais prolongado. Lá demoro mais para responder, mas faço-o com mais cuidado e tempo (rramosfilho@uol.com.br).
Grande abraço

Peri,
Não agüento mais correr atrás do rabo.
Abração

Marília,
Legal que você recebeu direitinho. Engraçado acharem que tenho filhos. Tenho apenas um enteado que amo como se fosse. Disse-me ontem que sou um paizão para ele. Que é feliz em ter dois pais.
Grande beijo

Denise,
Estou indo ver, curioso como sempre.
Beijão

Ery,
Fico muito feliz com a qualidade que seu dia teve. Sei que você merece.
Grande abraço

Alena,
Acredito cegamente que as emoções não mudam muito. Os garotos de hoje sofrem como nós sofríamos, de forma parecida.
Grande beijo

Alice,
Aproveitei, sim. Foi um dia tranqüilo, feliz.
Beijão

Cara Lady Madonna, prima querida, estava com saudades. Você andou sumida.
Beijo carinhoso

fermarpin disse...

Ói ! Milord !
Agora você me surpreendeu.
Então, afinal, você é... um homem ?
Fernando

marilia disse...

Amigo...
tem um pequeno textinho ( uma frase da maria Julia e minha lá para vc! valeu o carinho>
Boa semana!

Lord Broken Pottery disse...

Fernando,
De carne e osso.
Abraço

Marilia,
Estou indo ver.
Beijo

Meg (Sub Rosa) disse...

Mas, minhanossasenhora!
Ah! Essas musicas e o gloom.
Eu preciso voltar aqui.
Vou agora veder o meus outros amigos, mas volto.
Um beijo
Vou pela estrada
E cada.. é uma flor
Mas a flor amada
É mais que a madrugada...
M.

Lord Broken Pottery disse...

Meg,
Fico esperando,
Beijo